quinta-feira, 10 de setembro de 2009

4º DIA

Pela manhã....


Nesses quatro dias passamos por intensas provas de superação física e mental, sobretudo na remada. Esta "atividade", que consiste em nossa verdadeira força de locomoção, tem porém, nos proporcionado momentos sublimes, aos quais nos deparamos com um amálgama de emoções internas e externas.
Com o tempo - depois que os músculos se esticam e os ossos dos ombros deixam de estralar - remar, ou pilotar uma canoa se torna leve e prazeroso. Começa-se então a sentir a fluidez da canoa, a sentir que faz parte dela. Por segundos vertiginosos entendemo-na como uma extensão de nossos corpos.
No terceiro dia, quando ainda nos encontrávamos em D. Regina - que conseguiu manter sua simpatia enquanto nós mostrávamos-mos gratidão pela sua paciente capacidade de cozinhar para o pelotão - acordamos cedo, esticamos as roupas das doações que estavam molhadas e as separamos.
Eu e Gabi, um nordestino de uma ternura hipnótica com quem rapidamente fiz amizade - pessoa daquelas que nos fazem, apenas com o muito que guardam nos olhos, relevar nosso próprio ser, simples e grave como é - combinamos de colocar um nariz de palhaço que ele havia trazido, e fazer alguma arte com as crianças da comunidade. Eu, é claro, estava empenhado em um projeto asceta de, com a facilidade e satisfação que Gabi tinha de se misturar com aqueles seres, tentar vê-los não mais como um amontoado de células evoluídas ou pedacinhos de carne. Este objetivo foi realizado mais rápido do que o previsto. Pois além do Gabi, todos eram mestres nessa arte. Todos constituíam A própria arte.
Um conceito que seria radicalmente transformado em mim, era o da “idade”. Em Idade da Razão, Sartre nos mostra como o homem moderno está susceptível a esse “tempo externo” e por vezes, é fragilizado por ele: quando jovem tem calma, mira e mistifica o futuro. Quando velho tem pressa, se vê gordo ao lado da morte e corre atrás do presente não vivido. Ninguém ali parecia preso ou mesmo consciente de suas idades. Eu era, cronologicamente, o mais novo da equipe e, no entanto, percebia-me como um velho, sério, pesado e quase carrancudo perto daqueles rostos leves, estalados e sorridentes.
D. Regina contou-nos que á pouco tempo, um fortíssimo raio atingiu sua casa em cheio enquanto ela e a família dormiam. A casa queimou toda e surpreendentemente, ninguém morreu. Sua mãe foi uma grande curandeira local. E logo o principio irrefutável dos povos se deu. O mistério foi logo atribuído á velha que então passou a dar outras "provas" de sua presença.
Eu como um assíduo e enamorado antropólogo do mítico, não poderia deixar de enfatizar isso aqui. Pois, pra mim, o que não é ornamentado pela arte - é banalizado pela arrogância da ciência.
Na comunidade de D. Regina há umas 30 casas. Todas de madeira construídas com suas histórias e decoradas com suas alegrias. De frente, na outra margem do rio, existe uma outra pequena civilização congênita da primeira. Soubemos que lá moravam muitas crianças e fomos pra lá - é claro. Em duas canoas, estavam Gabi, Cami a "colombiana", Mer a "argentina" e Laine - uma mulher muito interessante que me mostraria muito a respeito da vida e da idade preenchida. Todos sem duvidas, eram interessantíssimos. Apenas não os conhecia ainda e prefiro descreve-los de acordo com as moldagens que eles foram me causando na medida em que me relacionava com cada um.
Na medida em que nos aproximava-mos, percebíamos as construções rudes que coloriam a fronte da costa. Contrastavam radicalmente com a romântica Grécia observada na noite anterior. Casas erigida em ladeiras de ingrimidade tal, que parecia impossibilitar a mais simples caminhada. Percebi também as duas igrejas (EVANGÉLICAS), que se impunham aos moradores. Era delas que vinham aqueles gritos sacros da noite anterior.
É curioso como esse evangelismo vem até o último rincão na busca profícua de formar rebanhos e delimitar os seus cercos. Encontraríamos mais adiante, por toda a viagem, nos cantos mais inóspitos, onde a persuasão é fácil e tomada como verdade. É a versão moderna do catolicismo espanhol da Idade Média.
Ao desembarcarmos, crianças já nos cercavam eufóricas. Sabiam de tudo antes de nós mesmos. Suas moradas são verdadeiros mirantes e, quando uma vela aponta no horizonte, todos ali são avisados. Isso só aumenta a ansiedade de todos e, principalmente das crianças que nos acompanharam guiando por onde íamos. Ali andamos, entregamos roupas, tomamos café, tiramos fotos e sorrimos, como perfeitos turistas. Senti um estranho mal estar. Observei meus companheiros: estáticos, mantinham as formalidades necessárias sentados no pequeno sofá, na cadeira da cozinha, no degrau da escada com os cachorros magricelas. E me senti mais uma vez impotente, querendo ajudar quem nem sequer reclama.
Depois de almoçarmos na D. Regina, partimos...

2 comentários:

  1. Olá...
    sou Karla e fui ano passado na viagem...
    parabens pela iniciativa de fazer um blog...
    bemmmm legallll....
    espero q continuem postando...
    e que tenham aprendindo tanto quanto eu....
    abraçossss

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  2. aprendemos na prática que existem realidades muito diferentes doque a aquela que a gente vive na cidade, e nem por isso é ruim, ou pior..é só diferente...e as dificuldades existem em qualquer lugar, oque não da é pra ficar parado..tanto aqui quanto lá!!!!
    E que ajudar um ao outro ñão é tão difícil assim, não é mesmo!!!!

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